Tarzan Enfrenta o Everest
CQuem não se lembra, com saudade, de uma ou outra
brincadeira dos tempos de criança? Seja na cidade
ou na roça, nas regiões mais pobres do mundo
ou nos países mais avançados, nas famílias
mais modestas ou nas mais ricas, a criança sempre
deixa fluir sua imaginação com muita criatividade.
E é por isso que, se soubermos olhar para a nossa
própria infância, teremos sempre muito a aprender
para a vida que vivemos hoje.
Um dos meus divertimentos prediletos, por exemplo, era
brincar de Tarzan. Imitava com toda força dos pulmões
aquele grito do Johnny Weismuller quando saltava por entre
as árvores da selva africana para salvar a Jane.
Pois eu adorava me ver como o Tarzan, não pela Jane
nem pela Chita, mas sim pela emoção de voar
no cipó.
Na pequena fazenda onde vivi minha infância, em Itapeva,
interior de São Paulo, havia uma goiabeira plantada
à beira de um barranco. Eu amarrava uma velha corda
no galho da goiabeira, dava um grito igual ao que eu via
nos filmes do rei das selvas e pulava, segurando a corda
como se fosse um cipó. Balançava pendurado
na corda e, num só impulso, voltava para cima do
barranco. Na energia dos meus nove anos, durante essa brincadeira
eu me sentia o mais corajoso dos homens.
Como a corda ficava na chuva e já estava gasta,
pois todos os dias eu brincava de pular no barranco, consegui
uma corda novinha e coloquei-a no lugar da antiga.
Além de corajoso, agora eu me sentia previdente.
Estava querendo dar ao meu brinquedo maior segurança
e qualidade (e naquela época nem se falava tanto
sobre essas palavras, que hoje estão na moda). Só
que eu não sabia, ainda, de um requisito importantíssimo
para essas duas palavras funcionarem: a atenção
aos detalhes. Melhor dizendo: atenção
a todos os detalhes.
Bem, voltando à minha história. Troquei a
corda, dei um nó bem forte, me preparei para o pulo
e caprichei no grito:
"Aaahhhooohow!". Era assim que eu sempre fazia.
O grito ecoava no barranco e ficava mais potente ainda.
Mas desta vez terminou um pouco diferente:
"Aaahhhooohow...ai!".
O pulo tinha terminado num tombo ridículo. A corda
nova era um pouco mais comprida que a antiga, e meu salto
ficou maior que a altura do barranco. Bati com a cara na
parede da ribanceira e despenquei no chão, com todo
o peso do corpo sobre o braço.
Voltei para casa quietinho, despistando, porque não
queria levar bronca dos pais nem gozação dos
irmãos. Naquela noite, toda a família foi
ao circo para ver um show da dupla Tonico e Tinoco. Eu não
me agüentava de dor no braço, mas não
queria contar minha mancada para ninguém.
Algumas décadas se passaram e, há poucos
meses, voltei àquele sítio, que agora pertence
a outras pessoas. Logo que pude dar uma volta sozinho por
ali, fui rever o barranco onde brincava.
Que decepção! A montanha dos meus saltos
de Tarzan era um barranquinho minúsculo. Tinha um
metro e meio de altura, no máximo!
Saí de lá com uma conclusão meio óbvia,
mas que acabou me valendo muito: O barranco não era
grande. Eu é que era pequeno!
Na viagem de volta, aquela imagem não me saía
da cabeça. Aí resolvi anotar o que aquele
menino de nove anos estava tentando ensinar a ele mesmo,
agora adulto:
- Os desafios não são tão grandes
como imaginamos ver. Nós é que ainda não
nos encontramos preparados para enfrentá-los.
- Os problemas não são tão complicados.
Nós é que estamos com pouco entusiasmo para
resolvê-los.
Quem faz a mesma coisa sempre, e da mesma forma, às
vezes acaba relaxando nos detalhes, e comete imprudência.
- Alguns acontecimentos de nossa vida foram marcantes.
Mas hoje não seriam tão especiais se tentássemos
vivê-los novamente.
- Quando estamos despreparados, nossa capacidade fica
pequena e qualquer montinho nos parece um Everest intransponível.
Outra coisa que a história do barranco me ensinou:
Se estiver em grande dificuldade, preocupado ou muito aborrecido
com algum problema, procure imaginar-se daqui a dez anos.
Tudo isso que o incomoda será passado. Estará
superado, resolvido. Você vai perceber então
que não foi o peso que diminuiu. Sua força
é que passou a ser mais bem aproveitada.
O tempo é um sábio professor. Por isso é
que, a cada final de ano, muitos fazem uma espécie
da balanço do ano que passou e tomam decisões
para o ano seguinte. Mas cuidado com essas resoluções
de Ano Novo, porque a maioria delas não consegue
sobreviver nem até o dia de Reis!
O que realmente dá certo é aproveitarmos
essa ocasião para renovar
nosso entusiasmo pela vida, o amor pelos que nos são
próximos, o aprendizado que a cada dia torna-se maior
e que não termina nunca.
Ao ingressar em um novo ano (especialmente agora, início
de novo século e novo milênio) cultive
um sonho de vida. Aquele sonho que é só
seu. Pessoal e intransferível. E que, por isso mesmo,
é universal. Deixe que este sonho o conduza, pelo
futuro afora, acalentando seu repouso depois de cada dia
de trabalho e iluminando seu dia-a-dia a cada novo amanhecer.
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