| Qualidade e comprometimento
Prof. Gretz
Imagine se nós fizéssemos
parte de um grupo de cem pára-quedistas. A bordo
dos aviões para exercícios de salto, já
estamos vestindo os pára-quedas, a poucos minutos
da hora de saltar, quando ouvimos a voz do comandante, falando
da base aérea:
"Pessoal, o equipamento que vocês
vão usar no salto de hoje tem 99% de qualidade. Mas
quem saltar com um pára-quedas defeituoso, entre
nossos 100 valorosos homens, não precisa se preocupar,
pois receberá todas as honras militares, com 21 tiros
de canhão na cerimônia da despedida, e sua
família será plenamente amparada. Portanto,
pulem confiantes!"
Você saltaria? Eu não!
Isso pode ser um exemplo extremo, mas a
situação não é incomum. De certa
forma, acontece com todos nós, consumidores de produtos
em geral. Todo cliente (e não só o consumidor
de pára-quedas) quer 100% de qualidade. Em alguns
setores da atividade econômica, essa exigência
é coisa séria. A indústria farmacêutica
é um desses casos. Se uma pessoa usar um colírio
que lhe cause um problema grave na vista, por exemplo, não
adiantará o fabricante alegar que "foi só
um frasco em um milhão". É claro que
isso vale para todos os produtos, farmacêuticos ou
não, desde um anticoncepcional até os pneus
de um automóvel.
Há alguns anos se fala muito em
Qualidade Total, mas ainda encontro gente se dá por
satisfeita ao atingir o nível de 99% de qualidade,
achando que a perfeição é uma meta
sobre-humana ("afinal de contas, errar é humano")
e achando que o cliente nem vai ligar para a irrisória
diferença de 1%.
Atingir 99% de qualidade pode ser bom para
quem estava com 98% ou menos, mas ainda é pouco.
Temos que estar sempre mirando os 100%. E quando chegamos
aos 100%, precisamos nos lembrar, a cada momento, que nada
é estático.
Manter os 100% é um desafio que
não tem fim. Todo aperfeiçoamento deve ser
contínuo e incessante.
Será que isso é uma posição
perfeccionista demais, que oprime as pessoas com um nível
de exigência muito grande? Depende de como essa busca
de qualidade seja aplicada. A todo momento, surgem novas
filosofias gerenciais para as empresas de hoje, trazendo
para a cultura empresarial os principais paradigmas do nosso
tempo. Algumas dessas filosofias viram moda, lotam auditórios,
inspiram livros que freqüentam durante vários
meses as listas de bestsellers e depois são substituídas
por novas filosofias. Mas praticamente todas elas –
pelo menos as melhores – destacam a necessidade do
comprometimento das pessoas como uma força decisiva
para o sucesso da empresa.
E só existe uma maneira de comprometer
o ser humano. É através da participação.
Quem participa, compromete-se. Participar é muito
mais do que sentir-se importante. É ser importante.
Para a organização, para os colegas, para
os familiares e para si mesmo. É como no organismo
humano: o corpo não é só cabeça,
orelha, olho, pé ou mão. Aliás, essas
partes separadas não geram nada. O ser humano é
um todo, que foi feito à semelhança de Deus.
É capaz, criativo e quer participar. "Espírito
de corpo" é isso. É espírito de
equipe, em que cada elemento pensa no todo, cada indivíduo
sabe da sua importância para os outros. Em uma empresa,
todos os serviços são importantes, e basta
que um setor falhe para que todo o sistema seja colocado
em dúvida.
Produtividade e qualidade dependem do comprometimento
de cada um dos integrantes da equipe. Se o gerente dá
uma ordem autoritária, dizendo algo como "eu
quero que você faça", isso pode garantir
obediência, mas não qualidade. O trabalho será
feito, mas o risco de erros ou de acidentes será
maior, a produtividade será menor e a qualidade do
ambiente de trabalho vai estar seriamente abalada.
Não é a autoridade que produz
resultados no trabalho de equipe, e sim o compromisso. Uma
pessoa trabalha muito melhor quando acredita no que faz
e gosta do seu trabalho.
As pessoas precisam saber que aquilo que
fazem tem importância. Desejam responsabilidade. Como
disse Eric Fromm: "Sentir-se útil torna-se uma
condição de equilíbrio da personalidade
humana. Desta forma, ser produtivo não é um
dever do homem, mas um direito. E a organização
precisa conceder-lhe esta oportunidade."
Depois de vários anos trabalhando
na área de Recursos Humanos, em várias organizações,
e agora como consultor e conferencista para empresas de
todo o País, uma das principais lições
que aprendi, e que considero como uma premissa básica
do ser humano, é a seguinte: as pessoas desejam realizar
um trabalho significativo, ter participação
e responsabilidade.
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