| Quem sabe lidar com esses
clientes ?
Prof. Gretz
O velhinho chega na farmácia e pergunta:
"O que tem de novo aí?".
Geralmente ele conta o seu problema de
saúde (que o farmacêutico geralmente já
conhece, quando é uma farmácia de bairro),
cita os nomes de todos os remédios que tomou nos
últimos meses e comenta o efeito que produziram.
Os mais conscientes do perigo da automedicação
falam sobre as consultas com os médicos que receitaram
cada remédio, os exames que fizeram, os planos de
saúde, o atendimento nas clínicas, a saúde
do seu cônjuge, etc.
É natural que este assunto seja
importante para pessoas que já precisam dar uma atenção
muito maior a sua saúde do que quando tinham vinte
ou trinta anos. Aliás, dizem que, depois de uma certa
idade, quando você acorda e não sente dor em
parte alguma do corpo é porque já está
do outro lado da vida...
O passeio de cada dia
Com o aumento da expectativa de vida –
obtido inclusive graças aos avanços científicos
na pesquisa de novos medicamentos – as pessoas na
faixa dos sessenta aos oitenta anos estão mais ativas,
mais atentas, participando mais da vida social. Não
ficam mais de pijama na cadeira de balanço esperando
a morte chegar. Hoje querem aproveitar nessa fase da vida
o que plantaram durante as décadas anteriores. E
constituem um expressivo segmento de mercado.
Em uma palestra que fiz recentemente sobre
qualidade de vida, comentei sobre as atuais mudanças
de atitudes por parte das pessoas idosas, e contei alguns
casos pitorescos sobre o comportamento dessas pessoas em
agências bancárias e em farmácias. São
os passeios preferidos do dia-a-dia de muitos senhores e
senhoras aposentados.
Ao final da palestra, uma moça me
procurou, dizendo que era dona de uma farmácia e
que, de fato, as pessoas de idade avançada vão
muito a esses lugares.
Vejamos: no último ano de vida,
uma pessoa gasta em medicamentos e tratamento médico
uma quantia equivalente ao que tinha gasto durante toda
a vida até então. E no último mês
gasta-se em média o valor que se gastou durante os
doze meses anteriores.
Essas informações são
analisadas de modo muito interessante por Domenico de Masi,
no livro "O ócio criativo". O que ele observa
no caso é que a velhice não é calculada
a partir de uma determinada idade. Tornar-se um sexagenário,
atualmente, não mais significa entrar na velhice.
Ela é calculada tendo como referência o ano
da morte: corresponde aos dois ou três anos que precedem
a morte; é quando a saúde física e
psíquica começa realmente a entregar os pontos.
Tudo isso cria uma nova realidade em nossa
vida pessoal, profissional, e também no mercado consumidor.
Temos uma faixa de consumidores com muita experiência
acumulada, com mais tempo para aproveitar a vida, geralmente
com recursos suficientes para viajar, consumir e se cuidar,
e com um nível de exigência bastante apurado
em relação à qualidade dos produtos
que consome. Aliás, para quem gosta de fila de banco,
as filas do Procom devem ser um ótimo programa para
conversar e fazer novos amigos...
Fazer bem feito da primeira vez
Mas a coisa mais importante que a moça
me falou após a palestra foi o seguinte: poucos comerciantes
estão sabendo lidar com essa clientela de terceira
idade, que constitui um segmento de grande peso para o ramo
farmacêutico.
Nosso cliente de idade, então, tende
a ser mais informado do que os consumidores mais novos.
Já passou por muitas experiências com tratamentos
de saúde, acompanhou os sucessivos avanços
científicos na indústria farmacêutica
ao longo das últimas décadas (avanços
que têm sido surpreendentes e tendem a surpreender-nos
ainda mais nos próximos anos), acompanha com interesse
o noticiário sobre o assunto, sabe tudo sobre a polêmica
dos genéricos e sobre os problemas dos hospitais
públicos, e é especialmente atento a um fator
decisivo na hora de optar pela compra de um produto: o preço.
Eis aí um aspecto que está
mexendo radicalmente com os paradigmas das empresas de hoje.
O cenário econômico altamente competitivo está
fazendo mudar a concepção de lucro, que é
a base da existência de qualquer empresa. Antes, considerava-se
que o preço de venda era resultado da soma do custo
mais o lucro (Preço de venda = Custo + Lucro). Hoje,
entende-se como lucro a diferença entre preço
de mercado e custo (Lucro = Preço de mercado –
Custo).
Isso está ocorrendo porque o preço
de venda é determinado principalmente pelos compradores
(pelo mercado). Assim, para conseguir mais lucratividade,
o empresário não tem outra saída a
não ser reduzir os custos. Sem diminuir a qualidade,
fique bem claro. Ou melhor, aprimorando a qualidade também,
ao mesmo tempo em que reduz os custos.
Como isso é possível? Aí
é que está uma das principais mudanças
de paradigma no cenário atual. Antes, acreditava-se
que maior qualidade era sinônimo de maiores custos.
Hoje, melhorar qualidade faz baixar custos.
Nunca se deu tanta importância ao
treinamento. As empresas do século 21, em função
dos avanços tecnológicos e das novas demandas
da sociedade, terão que dar uma ênfase cada
vez maior à capacitação do seu pessoal
– e, por extensão, às condições
de ensino da população. O maior esforço
de treinamento no mundo de hoje é voltado para a
qualidade.
A capacitação e o comprometimento
para a qualidade fazem com que as equipes de trabalho procurem
fazer bem feito da primeira vez. Essa atitude, tão
simples e óbvia, é capaz de reduzir significativamente
os custos da empresa, ao mesmo tempo em que assegura uma
melhoria da qualidade.
O foco inicial, portanto, não é
no custo, e sim na qualidade. Raramente se melhora a qualidade
reduzindo custos, mas com freqüência se pode
reduzir custos melhorando qualidade. Da mesma forma, o foco
não é na produtividade, e sim no comprometimento.
O segredo do bom atendimento
Quando se fala em qualidade e produtividade,
nossa tendência é pensar em produtos concretos,
como a mercadoria que passou por várias etapas de
preparação e depois é comprada pelo
consumidor final. Mas – além da qualidade e
do preço do produto – existe um outro diferencial
importantíssimo para o sucesso de qualquer empresa,
que não depende do produto em si, embora esteja presente
em todos os elos do ciclo da produção.
Esse diferencial é o atendimento.
Nos mercados altamente competitivos, ele pode ser o mais
importante diferencial em relação à
concorrência.
Se nos lembrarmos do exemplo daquele senhor
idoso na farmácia, vamos perceber de imediato a importância
do bom atendimento.
Falar de bom atendimento como diferencial
de sucesso no negócio não é perseguir
apenas a satisfação do cliente. Não
basta que o cliente fique satisfeito. Isso muitos conseguem,
então é só um ponto de partida.
O pulo do gato vai mais longe: é
encantar o cliente. Nos mínimos detalhes. Praticar
um atendimento realmente personalizado. Saber o seu nome,
adivinhar seus desejos, superar suas expectativas, criar
nele novos desejos e ousar surpreendê-lo a cada dia.
Afinal, seja moço ou idoso, quem
não gosta de ser bem tratado?
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